
A ocorrência recente de episódios graves de Doença de Chagas na Amazônia, incluindo a morte de um jovem de 26 anos na Região Metropolitana de Belém (PA), evidencia um problema persistente: a contaminação por alimentos à base de frutos amazônicos, como açaí, bacaba e buriti, quando o preparo não segue normas sanitárias adequadas.
O caso mais recente registrado em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, levou à morte rápida da vítima poucos dias após o diagnóstico. As autoridades sanitárias apontam que o jovem consumiu açaí possivelmente contaminado durante a manipulação. Em resposta, a administração municipal ampliou as inspeções em estabelecimentos comerciais e passou a monitorar moradores com sintomas compatíveis com a doença.
Segundo o professor e biólogo Éder Souza, a via oral é central na transmissão da doença na Amazônia. “A Doença de Chagas não se limita ao contato com o barbeiro. A ingestão de alimentos contaminados é uma forma frequente de infecção, relacionada à falta de controle sanitário durante o preparo”, explica. Souza ressalta que o problema não está nos frutos em si, mas no manejo inadequado. “Optar por pontos de venda confiáveis e higienizar corretamente os alimentos são medidas essenciais de proteção”, completa.
Na Amazônia Legal, o Pará concentra a maior parte dos casos. Segundo dados da Secretaria de Saúde do estado, foram 536 notificações em 2023, 485 em 2024 e 484 em 2025, com oito óbitos neste último ano. Municípios como Breves, Barcarena, Belém, Muaná, Ananindeua e Abaetetuba registram os maiores números, e 89% das infecções locais ocorrem por via oral, associadas ao consumo de produtos contaminados.
No Amazonas, a doença também permanece ativa, embora com menor incidência: 11 casos em 2023, cinco em 2024 e quatro em 2025. Nos demais estados da Amazônia Legal, segundo dados do DataSUS de 2024, foram registrados: Amapá, 41 casos; Acre, 17; Maranhão e Mato Grosso, dois cada; Rondônia e Tocantins, um caso cada. Roraima não apresentou registros.
No Tocantins, os números mostram que a Doença de Chagas, embora rara, continua presente e sob monitoramento constante. A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins confirmou 216 casos no segundo quadrimestre de 2025, além de 164 registros nos primeiros quatro meses do ano. Desses, 12 ocorrências no início do ano e 10 no segundo período foram classificadas como crônicas, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SinanNet) e o Gerenciador de Ambiente Laboratorial (GAL). Não houve óbitos registrados no estado em 2025.
A vigilância no Tocantins também avançou: entre janeiro e abril, foram 23 casos suspeitos e 164 confirmados, enquanto de maio a agosto os números subiram para 50 suspeitas e 216 confirmações. O relatório aponta aumento na busca ativas (quando equipes visitam residências), que passou de 22% no primeiro quadrimestre para 36% no segundo, e na busca passiva (dependente de notificações), de 33% para 41%. O controle químico também cresceu, de 56% para 61%, indicando maior atenção das autoridades à prevenção e ao monitoramento.
A contaminação ocorre quando o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença, atinge o alimento durante colheita, transporte ou processamento, geralmente por insetos infectados ou seus resíduos. Diferente da forma clássica transmitida pelo barbeiro, a transmissão oral pode afetar várias pessoas simultaneamente, como em surtos familiares ou comunitários.
Segundo Souza, a prevenção depende de medidas simples, mas rigorosas: higienizar corretamente os frutos, aplicar choque térmico, manter ambientes limpos e utilizar água potável no preparo. Para o público, é importante observar a procedência dos produtos e procurar atendimento médico imediato diante de sintomas como febre persistente, fadiga intensa, dores musculares, inchaço facial, náuseas ou mal-estar após o consumo de alimentos artesanais. O tratamento na fase aguda é altamente eficaz e reduz complicações graves.




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