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Diploma na Parede, ou Ferramentas na Mão?

Ter um diploma é como segurar um mapa com esperança. Mas o território da profissão não para de se transformar — e só quem caminha com humildade e coragem não se perde no caminho

20/01/2026 às 15h08
Por: Nágila Sávia Souza Quintanilha
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Houve um tempo em que esse mapa era tratado com desdém. Lembro-me de um artigo que escrevi em 2009, intitulado "Os Biqueiros da Educação", no saudoso Jornal do Tocantins, da época do papel que se folheava sem pressa. Nele, critiquei uma realidade amarga de muitos interiores: a educação tratada como "bico", profissionais atuando fora de sua área, cargos preenchidos por indicação política e a perseguição velada a quem não se alinhava. Era um sistema que, por si só, desvalorizava as ferramentas e honrava o canudo vazio.
De lá para cá, a base legal também forjou um novo patamar. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) já estabelecia, em seu Artigo 67, que os sistemas de ensino deviam promover "a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes (…) aperfeiçoamento profissional continuado" (BRASIL, 1996). Esse direcionamento pavimentou a evolução que vimos: a exigência por formação específica, os concursos públicos, os planos de carreira e uma gestão mais técnica ganharam espaço.
E hoje? Ainda temos "biqueiros da Educação"?
Sim, mas a resposta é mais complexa. Ainda existem aqueles que fazem da sala de aula um "bico" – por necessidade, por um curso dos sonhos adiado, ou por uma vaga na área de formação que ainda não surgiu. A diferença crucial, porém, está no coração da questão. Muitos desses profissionais, mesmo sem o "dom" ou a vocação inicial, procuram dar o seu melhor. Com dedicação e compromisso, eles buscam se qualificar, se adequar e se moldar às demandas atuais. Eles honram a função com as ferramentas que têm e as que buscam adquirir.
Os verdadeiros "biqueiros", então, talvez não sejam mais definidos apenas pela falta de formação, mas pela falta de compromisso. São aqueles que, mesmo com toda a estrutura e exigência, permanecem parados no tempo, com o mapa na mão e nenhuma intenção de caminhar. Que não buscam, não evoluem e não respeitam o imenso poder transformador que carregam nas mãos.
E nós, diante disso? Essa evolução do contexto, portanto, não nos absolve da responsabilidade individual. Pelo contrário: ela a amplifica e a legitima, jogando uma luz ainda mais forte sobre a escolha de cada um.
Não importa se você estudou presencial ou a distância, em uma instituição federal ou particular. Não importa, tampouco, se você é um professor contratado ou efetivo. O que será decisivo, sempre, é o profissional que você é — e, mais importante ainda, o profissional que você se torna a cada dia, diante da comunidade escolar, e em especial dos seus alunos. O contexto melhorou para que a excelência, de fato, seja uma escolha possível, independentemente do seu vínculo empregatício.
Não basta carregar o canudo com orgulho; é preciso carregar, no peito, a vontade de aprender sempre. Porque por mais títulos que acumulemos — especialista, mestre, doutor — seguiremos sendo, no fundo, aprendizes eternos. E há beleza nisso.
Mas esse caminho exige mais do que conhecimento técnico. Exige de nós, caráter profissional. Precisamos lembrar, como nos ensinou Paulo Freire, que "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção" (FREIRE, 1996). Esse é o cerne. Estamos preparados para criar essas possibilidades? Prontos para receber uma crítica, seja ela construtiva ou não, e usá-la como degrau nessa construção conjunta? Conseguimos ler, interpretar e, principalmente, escrever e nos expressar não apenas conforme nossa formação, mas como pontes vivas para que outros também construam?
Essas são as ferramentas essenciais, as pontes que erguemos entre nós e o mundo. Quando as negligenciamos, é nossa própria voz que fica frágil, e a conexão, tristemente, se desfaz. O mercado — e a sociedade — são competitivos. Eles não perguntam onde você estudou, mas o que você faz com o que aprendeu. Diante deles, a escolha é clara — e urgente: Você vai ficar parado, admirando o mapa emoldurado na parede, ou vai pegar suas ferramentas, com as mãos e o coração dispostos, e assumir a responsabilidade pelo profissional que decide ser?
A verdade é que somos observados, cobrados e avaliados o tempo todo — e no trabalho, isso é ainda mais direto. E então, qual vai ser? Vamos encarar no espelho, fazer um balanço sincero e ter a coragem de mudar o que precisa? Ou vamos seguir na nossa, confortáveis na ideia de que já sabemos tudo — ou pelo menos, o bastante para nos safar?
Porque no fim das contas, não se trata só de ter um diploma.
Trata-se de honrá-lo — a cada escolha, a cada crítica absorvida, a cada texto bem escrito, a cada nova ponte que você se atreve a construir.
O passado nos alertou sobre os "biqueiros". O presente nos entrega a chance de sermos artífices. A parede está pronta para seu mapa. O mundo, não. O mundo espera por suas ferramentas.
Então, voltamos ao começo.
O mapa que carregamos — seja ele de qual instituição for, sob qual vínculo for —, ele serve para quê? Para ser um papel bonito na moldura da nossa história?
Ou para ser dobrado, amassado, marcado pelo suor do caminho, aberto e fechado mil vezes enquanto buscamos — não a estrada pronta — mas a trilha que só nós podemos abrir, com as ferramentas que só nós podemos afiar?
O mundo não precisa de mais diplomas pendurados.
Precisa de nossas mãos dispostas.
E de nosso coração aberto para a pergunta que nunca se cala:
Que tipo de profissional escolhemos ser… hoje?

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