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Auê “desnecessário” do Coletivo Candiero

Um debate sobre o sincretismo religioso que esconde a falência criativa da música gospel

12/02/2026 às 09h18 Atualizada em 12/02/2026 às 09h32
Por: Danilo Rodrigues
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Auê “desnecessário” do Coletivo Candiero

Com clipe lançado há pouco mais de duas semanas, a música “Auê - A Fé Ganhou” do grupo Coletivo Candiero gerou debate nas redes sociais no meio cristão evangélico.

Agora que o  entrou e todo mundo viu
E todo mundo olhou, e todo mundo riu
Ninguém se acostumou, mas o céu se abriu
Agora que a fé ganhou e a Maria sambou
Sua saia balançou, alguém se incomodou
Com a cor que ela mostrou, mas o céu coloriu

Parte da comunidade não viu nada de mais na letra da música, já outra parcela afirma que o trecho acima faz uso de sincretismo religioso ao fazer referências a Zé Pilintra e Maria Padilha, entidades presentes em religiões de matriz africana.

O problema maior em torno dessa música não é a referências ou não à umbanda ou outras religiões, mas o quanto religiosos discutem o que é profano ou arte dentro de suas religiões enquanto quase ninguém discute como a música gospel tem se tornado um vazio criativo com a exploração massiva do worship americano.

Toda essa polêmica em torno dessa música só ofusca a falta de criatividade no meio cultural gospel. A importação do worship e a elitização da música religiosa coloca as canções dentro de um padrão americano sufocando a liberdade criativa que o movimento poderia ter e ignorando a diversidade estética que o gospel popular possui nas igrejas da periferia. Com a “worshipzação” do gospel, todas as músicas parecem iguais, com as mesmas progressões harmônicas e a mesma lógica de criação de clímax para o louvor: início lento com poucos instrumentos, prelúdio com batidas tribais da bateria, pausa para cantar o refrão sem a banda, volta a banda cantando o refrão com ainda mais emoção e impacto.

O Coletivo Candiero é um grupo de artistas nordestinos que se vendem como uma banda que tenta romper com a dependência do sudeste no mercado fonográfico. O grupo é ousado em suas letras mais poéticas e outros conceitos criativos oriundos do nordeste. Ainda que o grupo arrisque sabendo que seu público é fervoroso, o Candiero ainda cai na cilada do worship enlatado, como se o gênero fosse um porto seguro.

O pecado da música produzida pelo Coletivo Candiero não é com a religião, mas com a arte. Há espaço para a criatividade mesmo na música sacra, algo que a “worshipzação” não é capaz de proporcionar. Essa nova música, apesar de usar chapéu de couro e ter sotaque do nordeste, tenta ser profunda, mas tem a profundidade de uma patena. Outrossim, não vou julgá-los, pois julgar é pecado.

Obrigado por ler minhas Divagações. Leia mais em www.divagacoes.com.br

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