A leitura é uma aventura solitária. Embarcamos em um universo muitas vezes inventado e podemos nos apaixonar ou nos decepcionar com ele. Falhar ao escolher um livro para si já é difícil; para outrem, é igualmente complicado, ou pior.
Recentemente, apresentei aos meus seguidores no Instagram uma seleção de obras que recebi da Editora Vecchio: Maria da Caatinga, de Nivania Arruda, e Além do Tempo, de Deise Raquel Cardoso. Comentei brevemente sobre ambos os títulos e um seguidor me pediu, gentilmente, que lhe doasse um livro.
Dar um livro é sempre um desafio. Perguntei a esse seguidor de que tipo de literatura ele gostava. Ele respondeu que "gostava de tudo". Não sei se é possível gostar de tudo; quem o diz, talvez não goste de nada. Essa falta de critério na seleção do próprio gosto pode ser um reflexo da algoritmização das redes sociais. Entramos nos aplicativos e aceitamos o que nos é ofertado, pois o algoritmo, em geral, "acerta" nossas preferências.
Mais difícil do que dar um livro para quem se conhece é encontrar a obra certa para um desconhecido. Das poucas vezes em que presenteei alguém com um livro, poucas foram as escolhas assertivas, ainda que eu conhecesse a pessoa. Dos muitos livros que ganhei, poucos acertaram o alvo, ainda que os doadores fossem próximos. Embora seja uma tarefa fadada ao fracasso, luto para ler o que ganho, numa tentativa de retribuir o esforço de quem tentou decifrar minhas preferências.
Poder-se-ia pensar que um voucher de livraria resolveria o problema. É um engano. Eu erro ao comprar livros até para mim mesmo. Pode ser que eu seja difícil de agradar, ou que não saiba comprar para mim ou para os outros, mas prefiro acreditar que o problema não sou eu.
O gosto literário é algo particular e mutável, acompanhando o amadurecimento do leitor. Eu, que gostava de fantasia, hoje me identifico com distopias e planejo me aventurar pela literatura clássica russa. Não sei até que ponto meus amigos mais próximos sabem disso, pois não é um assunto recorrente. Mapear o desejo alheio é tão complexo quanto mapear o próprio gosto.
Presentear com um livro é um risco, mas um risco interessante de se encarar. Acertar uma obra pode acompanhar um leitor pelo resto da vida. Algo semelhante aconteceu comigo na juventude: uma vizinha da minha avó me presenteou com As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky. Aquele livro marcou minha adolescência e, ainda hoje, sinto que faz parte de mim. Já não possuo o exemplar original, mas comprei outros dois, em edições diferentes. É, provavelmente, o livro que mais reli.
Essa vizinha talvez não saiba (e nem está mais entre nós para saber), mas ela acertou em cheio. O algoritmo apresenta o que ele acha que nós somos; a vizinha me presenteou com algo que eu nem sabia que precisava.
Nesse sentido, dar um livro revela mais sobre o presenteador do que sobre o presenteado. Projetamos, inconscientemente, nossas próprias inclinações ao adquirir uma obra para outrem. Vou aceitar o desafio proposto pelo seguidor, ciente de que posso errar. Posso não entregar o que ele gosta, mas oferecerei um pouco de quem eu sou. Dito isso, ainda não sei qual é o melhor livro.
Obrigado por ler minhas Divagações. Leia mais em www.divagações.com.br
Cultura KIM, voz da banda Catedral, se apresenta em Palmas com show intimista
Lançamento Livro “Você Deveria Chorar” será lançado em Palmas com proposta de reflexão e acolhimento
Formação Cine Crias avança no Tocantins e leva formação audiovisual para território indígena Xerente
Oscar 2026 O Cinema que o mundo respeita é brasileiro
Artesanato Secult celebra o Dia do Artesão e destaca importância do feito à mão no Tocantins
Cinema Curta tocantinense “Insolação” ganha destaque internacional e acumula prêmios em festivais de cinema