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O que faz de um Clássico um Clássico?

De 2010 para cá, quais álbuns têm fôlego para sobreviver ao tempo?

09/04/2026 16h05 Atualizada há 1 hora
Por: Danilo Rodrigues
O que faz de um Clássico um Clássico?

Para Italo Calvino, “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Na música temos muitos álbuns considerados clássicos em diversos movimentos. Segundo a revista Rolling Stone, Abbey Road (The Beatles, 1969), Nevermind (Nirvana, 1991), Thriller (Michael Jackson, 1982), The Dark Side of the Moon (Pink Floyd, 1973) e Red (Taylor Swift, 2012) estão entre os 100 melhores discos de todos os tempos. Red ganha destaque pelo marketing em torno da obra, mas o que cada um destes álbuns têm em comum? Cada um desses discos ainda fala com o presente, cada um à sua maneira e com resquícios do contexto em que foi produzido. 

The Dark Side of the Moon fala sobre futilidades ligadas ao dinheiro, a forma como desperdiçamos o nosso tempo, já Red comunica sobre as vulnerabilidades modernas. Os assuntos não mudaram, mas a forma como cada geração absorve o tema sim. 

Gosto da definição de Calvino sobre clássicos, pois ela afirma que lemos ou ouvimos clássicos não para nos lembrar do passado, mas para refletir sobre o presente. Ainda que as músicas desses discos citados tenham sido compostas em contextos distintos, cada geração tem a capacidade de interpretar e atribuir sentido à sua maneira.

No Brasil temos bons exemplos de discos clássicos que atravessaram gerações, como Chega de Saudade (João Gilberto, 1959), Secos e Molhados (Secos e Molhados, 1973), Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972), Cartola (Cartola, 1976) e Samba Esquema Novo (Jorge Ben, 1963). Esses álbuns são considerados clássicos, pois são exemplos de ruptura, não só estética, mas de discurso. Foram músicas feitas para revolucionar estilos e algumas como protesto em suas épocas. Apesar disso, elas permanecem comunicando com as novas gerações não como um recorte do passado, mas como uma análise no presente, pois a mensagem ainda perdura.

Trazendo esse contexto de clássicos para o presente, que álbuns recentes podem vir a se tornar clássicos no futuro? Venho pensando em uma lista há algum tempo e o que vou propor agora é bem pessoal baseado no que costumo ouvir cotidianamente. 

  1. Canções de Apartamento (Cícero, 2011)

  2. Monomania (Clarice Falcão, 2013)

  3. Troco Likes (Tiago Iorc, 2015)

  4. Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (Emicida, 2015)

  5. A Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares, 2015)

  6. Tropix (Céu, 2016)

  7. Melhor do que Parece (O Terno, 2016)

  8. O Tempo é Agora (Anavitória, 2018)

  9. Mil Coisas Invisíveis (Tim Bernardes, 2022)

  10. Caju (Liniker, 2024)

Menções honrosas: As Plantas que Curam (Boogarins, 2013); Amianto (Supercombo, 2014); Duas Cidades (BaianaSystem, 2016); Recomeçar (Tim Bernardes, 2017); AmarElo (Emicida, 2019).

Analisando o teor desses álbuns que eu considero que podem vir a se tornarem clássicos no futuro (se é que já não o são), notamos que há novamente uma ruptura, dessa vez de comportamento. A geração atual não versa sobre conflitos externos, pois está mais preocupada com o “eu”. Não que isso seja um defeito, mas uma escolha de refletir sobre si mesmo antes de resolver conflitos criados por gerações passadas. Os discos de Elza Soares e Emicida que aparecem na minha lista fogem dessa lógica, pois são artistas de outra geração, mais adaptada a tratar de assuntos sociais e coletivos.

Portanto, um clássico não é um álbum que fez sucesso em uma época e ainda é famoso, mas um disco capaz de se comunicar através das gerações. A nova geração de artistas rompe com a lógica de resolver conflitos externos, buscando resolver seus próprios conflitos.

Obrigado por ler minhas Divagações. Leia mais em www.divagacoes.com.br

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