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FIOS DA AUTONOMIA: MULHERES TRANSFORMAM BELEZA EM EMPREENDEDORISMO NO TOCANTINS

Elas encontram no mercado dos cabelos um caminho para gerar renda, ampliar oportunidades e transformar histórias

07/06/2026 às 08h19 Atualizada em 07/06/2026 às 08h39
Por: Gabriela Carneiro
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O crescimento da procura por tranças e cabelos naturais impulsiona negócios liderados por mulheres no Tocantins. (Foto: Blues Films)
O crescimento da procura por tranças e cabelos naturais impulsiona negócios liderados por mulheres no Tocantins. (Foto: Blues Films)

Seja em salões especializados em cabelos crespos e cacheados, atendimentos autônomos de trancistas e até em lojas voltadas ao mercado das fibras, mulheres têm transformado o setor da beleza em uma das principais portas de entrada para o empreendedorismo no Tocantins.

 

O movimento acompanha uma crescente observada em todo o estado. Atualmente, mais de 76 mil empresas tocantinenses são comandadas por mulheres, o equivalente a 41,8% dos negócios formalizados. No segmento da beleza e bem-estar, a presença feminina é ainda mais expressiva: o número de empreendedoras cresceu 470,5% na última década, segundo dados do Sebrae.

 

Por trás desses números estão trajetórias de mulheres que encontraram nos fios uma oportunidade para construir autonomia financeira e alcançar novos projetos de vida. É o caso de Anna, que transformou uma experiência marcada por inseguranças com o próprio cabelo em um negócio especializado nos fios naturais. Também é a trajetória de Vera Lúcia, que deixou o trabalho formal para investir em um mercado ainda pouco explorado na época: a venda de fibras e cabelos para trancistas. E de Maiara, que encontrou nas tranças uma forma de complementar a renda e alimentar o sonho de abrir o próprio espaço.

 

Apesar dos caminhos diferentes, as três fazem parte de um mesmo cenário: o crescimento do empreendedorismo feminino em um setor onde beleza, identidade e geração de renda caminham lado a lado.

Anna, aos 28 anos é proprietária da Afrodite Cabelos Naturais, especialista em cabelos crespos, cacheados e ondulados, ela divide sua rotina de atendimentos entre Palmas e Colinas do Tocantins. (Foto: Reprodução/ @especialista_em_cacheadas)

Para Anna, a relação com os cabelos naturais começou muito antes do empreendedorismo. Ainda criança, ela enfrentava dificuldades para se reconhecer na própria imagem. Sem referências com as quais se identificasse, passou pelo primeiro alisamento aos oito anos de idade. Durante mais de uma década, manteve os fios quimicamente modificados e chegou a esquecer como era a textura natural do próprio cabelo.

 

Anos depois, já morando em outra cidade e cursando a faculdade, começou a questionar inseguranças que carregava desde a infância. Foi nesse período que decidiu iniciar a transição capilar. O processo, no entanto, trouxe uma descoberta inesperada: a percepção da ausência do autocuidado.

 

Na época, Anna já trabalhava há cerca de cinco anos em um salão de beleza, atuando principalmente com procedimentos de alisamento. Mesmo assim, percebeu que não sabia como cuidar dos próprios fios naturais. “Essa experiência me fez perceber que as dores, dúvidas e inseguranças que eu estava enfrentando eram as mesmas vividas por muitas mulheres”, explica.

 

A constatação deu origem a um propósito. Ao perceber que outras mulheres também buscavam orientação, acolhimento e informação durante a transição capilar, Anna decidiu investir em um segmento ainda pouco explorado no Tocantins. O que começou em um cômodo da própria casa, sem grandes recursos financeiros, deu origem ao salão Afrodite Cabelos Naturais.

 

O nome foi inspirado na deusa grega do amor e da beleza e carrega os valores que ela pretendia construir no negócio: autoestima, identidade e valorização da beleza natural. Hoje, a empreendedora divide a rotina entre Palmas, onde iniciou a trajetória profissional, e Colinas do Tocantins, sua cidade natal. Há cinco anos mantém atendimentos nas duas cidades e lidera uma equipe formada por três pessoas.

 

“Meu foco sempre foi fazer um bom trabalho e ajudar as pessoas. Hoje me sinto feliz e grata por tudo o que venho construindo com propósito ao longo dessa trajetória”, afirma.

 

A história de Anna acompanha uma mudança que ela própria observa entre as clientes que chegam ao salão. Segundo a empreendedora, muitas mulheres procuram atendimento carregando inseguranças semelhantes às que ela enfrentou durante a própria transição capilar. Entre dúvidas sobre cuidados, dificuldades de aceitação e pressão por padrões estéticos, o que começa como uma busca por orientação frequentemente se transforma em um processo de reconexão com a própria imagem.

 

“Assim como aconteceu comigo, muitas delas passaram anos sem se reconhecer em sua própria identidade. Hoje, depois desse processo de reencontro, não conseguem mais se imaginar de outra forma”, relata.

 

Nos últimos anos, a valorização dos cabelos naturais também contribuiu para ampliar a demanda por profissionais especializados. Para Anna, o mercado de cabelos crespos, cacheados e ondulados vive um momento de crescimento impulsionado pela busca por representatividade, informação e acolhimento.

 

Uma oportunidade onde poucos enxergavam mercado

Aos 48 anos, Vera Lúcia comanda a loja Cabelo Meu, referência na comercialização de fibras e cabelos para profissionais do Tocantins. (Foto: Gabriela Carneiro)

Antes de empreender, Vera Lúcia trabalhava com carteira assinada na área da saúde em Paraíso. Técnica em enfermagem, dividia a rotina entre o trabalho e os cuidados com o irmão, que morava na Europa e enfrentava problemas de saúde.

Foi justamente a partir dele que surgiu o primeiro contato com um mercado que mudaria sua trajetória profissional. O irmão enviava cabelos e fibras do exterior para que ela vendesse no Tocantins. O que começou como uma atividade complementar logo despertou a atenção para uma oportunidade ainda pouco explorada na região.

Na época, produtos voltados para tranças e alongamentos eram encontrados principalmente pela internet. Ao perceber o aumento da procura, especialmente entre estudantes africanas que viviam em Palmas, Vera decidiu investir no segmento.

“Eu já achava as tranças bonitas e percebia que existia uma demanda crescente. Comecei a buscar mais informações e fui entendendo que havia espaço para construir algo nesse mercado”, lembra.

A decisão exigiu pesquisa, planejamento e disposição para aprender. Em busca de fornecedores, Vera passou a frequentar feiras especializadas em São Paulo e ampliou gradativamente o catálogo de produtos. Nos primeiros anos, conciliou a venda de cabelos com a comercialização de cosméticos e artesanato para complementar a renda.

Mais de uma década depois, a realidade é diferente. A loja Cabelo Meu completa 12 anos de atuação em 2026 e se consolidou como referência para profissionais que trabalham com tranças e cabelos naturais no Tocantins. Atualmente, o negócio atende clientes em diferentes municípios tocantinenses. “Hoje temos parcerias na Lagoa da Confusão, Ponte Alta, Cristalândia, Nova Rosalândia, Pium e Paraíso, além de estados vizinhos como Pará e Maranhão”, afirma.

A empresa mantém uma rede de parceria com cerca de 70 trancistas, oferecendo condições especiais para profissionais que utilizam os produtos em seus atendimentos. O crescimento também pode ser medido em números. Atualmente, Vera trabalha com quatro importadores fixos, mantém mais de R$ 130 mil em estoque e concentra grande parte das vendas nos canais digitais. Apenas em fevereiro deste ano, o faturamento com a venda de cabelos ultrapassou R$ 66 mil.

A estrutura também cresceu. Além de uma funcionária fixa, a empreendedora conta com parceiros responsáveis pelas entregas e mantém uma rede de relacionamento com profissionais que movimentam diariamente o mercado das tranças no estado.

 

A loja atende profissionais de diferentes regiões do Tocantins e integra uma cadeia econômica impulsionada pelo mercado da beleza. (Foto: Gabriela Carneiro)

Para Vera, parte desse crescimento está ligado ao fortalecimento do trabalho realizado pelas trancistas e à mudança de percepção da sociedade sobre as tranças e os cabelos naturais.

“Eu admiro muito o trabalho das trancistas porque é um trabalho feito com as mãos. Muitas vezes as pessoas não entendem o tempo que existe por trás de cada trança e acabam questionando os valores cobrados”, afirma.

Segundo ela, o segmento ainda enfrenta desafios relacionados à valorização profissional, mas os avanços são perceptíveis. “Antes existiam muitos preconceitos. Hoje as pessoas enxergam de outra forma. Existe mais informação, mais representatividade e uma geração que passou a olhar para isso com mais naturalidade”, avalia.

Para a empresária, empreender também significou construir uma rede de apoio e colaboração entre mulheres que atuam no mesmo segmento. “Eu acredito que o mercado tem espaço para todos. Vejo outras empreendedoras como parceiras e não como concorrentes. Quando não tenho um produto, indico outras profissionais. O sol brilha para todos!”, conclui.

Das tranças da escola aos atendimentos agendados

Aos 25 anos, Maiara utiliza as tranças como complemento de renda e sonha em abrir o próprio espaço de atendimento (Foto: Reprodução/@maibraidss)

 

 

 

Um mercado em expansão

O crescimento da procura por tranças e cabelos naturais ampliou oportunidades para mulheres em diferentes etapas da cadeia da beleza, do atendimento especializado à comercialização de produtos. (Foto: Blues Films)

 

 

As trajetórias de Anna, Vera e Maiara refletem transformações que vêm redesenhando o mercado da beleza no Tocantins. O aumento da procura por cabelos naturais, a expansão do segmento de tranças e o fortalecimento de pequenos negócios liderados por mulheres ampliaram oportunidades em diferentes etapas dessa cadeia produtiva.

 

Enquanto profissionais especializadas passaram a atender uma demanda crescente por serviços personalizados, empreendedoras encontraram espaço para atuar na comercialização de produtos, atendimento especializado e gestão de negócios voltados ao setor.

 

Nesse cenário, a formalização também avança. Em julho de 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego criou uma Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) específica para trancistas, reconhecendo oficialmente a profissão e ampliando o acesso dessas trabalhadoras a direitos, políticas de inclusão produtiva e oportunidades de formalização.

 

Mais do que acompanhar tendências estéticas, essas mulheres participam de um mercado que movimenta renda, gera empregos e fortalece a presença feminina no empreendedorismo tocantinense.

 

No Tocantins, os fios que passam diariamente pelas mãos de Anna, Vera e Maiara carregam histórias de trabalho, independência e futuro. Além de transformar cabelos, essas mulheres entrelaçam experiências e oportunidades e mostram que a autonomia também pode ser construída fio a fio.

 

 Gabriela Carneiro é jornalista formada pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Atua na produção de conteúdo, reportagens e projetos de comunicação. Especializanda em Estudos Latino-Americanos e Territorialidade, tem interesse por narrativas que atravessam território, cultura, memória e as relações entre pessoas e seus modos de vida.

 

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