
O Brasil possui o terceiro maior mercado pet do mundo e movimenta bilhões de reais todos os anos. Ao mesmo tempo, milhões de cães e gatos vivem em situação de abandono.
Em Palmas, o problema não aparece apenas nas ruas. Ele chega às clínicas veterinárias, aos grupos de protetores independentes, às empresas que decidem apoiar a causa e, cada vez mais, ao poder público.
O abandono produz uma demanda permanente por alimentação, castrações, atendimentos veterinários, resgates, fiscalização e ações de conscientização. Uma conta que não aparece em planilhas, mas que é dividida diariamente por quem decidiu enfrentar um problema que continua sendo alimentado pela própria sociedade.
Quando o problema chega primeiro aos protetores
Antes mesmo de o carro parar, os gatos começam a surgir.
Alguns saem de terrenos baldios. Outros aparecem atrás de muros, árvores e construções abandonadas. Em poucos minutos, dezenas de animais cercam a protetora independente Lilian Cabral, conhecida em Palmas como Pitty.
Eles reconhecem o som do carro.
Sabem exatamente o horário da alimentação.
Há dez anos, essa cena faz parte da rotina da protetora, que atualmente acompanha cerca de 90 animais entre cães e gatos espalhados por diferentes regiões da Capital.
Toda semana, ela utiliza aproximadamente 25 quilos de ração para gatos e entre 15 e 20 quilos para cães. Os gastos mensais variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil. Os pedidos de ajuda chegam diariamente. Em alguns dias são poucos. Em outros, ultrapassam 20 ou 30 solicitações.
Mas a experiência também ensinou limites.
“Eu não faço resgate de animais. Eu cuido de animais na rua. Meu investimento na causa animal é matar a fome.”
A decisão veio depois de anos acumulando dívidas com tratamentos veterinários e internações.
Hoje, Pitty concentra esforços naquilo que consegue manter financeiramente: alimentação, vermifugação e acompanhamento das colônias.
“Se as protetoras independentes parassem hoje, o número de animais nas ruas aumentaria drasticamente.”
A fala ajuda a explicar uma realidade conhecida por quem atua na proteção animal. O abandono continua acontecendo em ritmo superior à capacidade de resposta de quem tenta minimizar seus efeitos.
Por muito tempo, essa conta ficou quase exclusivamente nas mãos de pessoas como Pitty.
Mas isso começou a mudar.
Uma demanda que virou oportunidade
Quando iniciou a carreira em Palmas, há mais de 25 anos, a médica veterinária Paula Lima ouviu diversas vezes que atender protetores independentes não era um bom negócio.
Os animais geralmente chegavam em situações complexas, os recursos eram limitados e os tratamentos exigiam negociações constantes.
Mas enquanto muitos profissionais enxergavam um problema, Paula identificou uma demanda que simplesmente não estava sendo atendida.
Ao longo dos anos, passou a desenvolver um trabalho voltado para esse público e se tornou uma das principais referências da Capital quando o assunto é castração.
“Era uma demanda que existia e precisava ser atendida.”
O que começou como uma decisão profissional acabou fortalecendo a própria clínica.
As protetoras passaram a divulgar espontaneamente o trabalho da veterinária, organizar rifas, campanhas e arrecadações para custear procedimentos e indicar novos clientes. O boca a boca ajudou a consolidar sua reputação e ampliar sua atuação no mercado.
Hoje, além dos atendimentos na clínica, Paula também participa voluntariamente dos mutirões promovidos pela Secretaria Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal (SEBEM).
Sua trajetória mostra como uma necessidade social ignorada por grande parte do mercado acabou se transformando em uma área de atuação consolidada, beneficiando animais, protetores e a própria atividade profissional.
Quando empresários decidem fazer parte da solução
Em 2013, o empresário Clodoaldo e a esposa encontraram uma gata com cinco filhotes abandonados na quadra onde moravam.
A princípio, decidiram apenas alimentá-los.
Pouco tempo depois, já acompanhavam sete colônias de gatos e forneciam alimento diariamente para cerca de 60 animais.
Mas logo perceberam que apenas alimentar não resolveria o problema.
“Começamos a capturar esses animais para esterilização. Adotamos muitos deles, mas a conta não fechava. O número de animais nas ruas era muito maior do que conseguíamos abrigar.”
A solução encontrada foi investir na castração e no monitoramento permanente das colônias.
Mais de uma década depois, os resultados começaram a aparecer.
Das sete colônias iniciais, restam quatro. O número de animais caiu para menos de 20.
Além dos gatos, o casal também alimenta cães que vivem próximos à Gabriel Transportes e realiza resgates de animais feridos ou em situação de vulnerabilidade.
Com o passar dos anos, Clodoaldo passou a compartilhar experiências com empresários da região, incentivando a castração, a guarda responsável e o apoio às ações da causa animal.
O problema não desapareceu.
Mas a conscientização aumentou.
Hoje existe uma rede de empresários que contribui com alimentação, transporte, atendimento veterinário e divulgação de campanhas ligadas à proteção animal.
“A palavra convence, mas o exemplo arrasta.”
A experiência mostra que o abandono não é apenas um desafio para protetores e órgãos públicos. É também uma questão que pode mobilizar empresas, gerar redes de colaboração e produzir soluções práticas dentro da própria comunidade.
Quando o poder público entra na conta
Durante décadas, a proteção animal em Palmas foi sustentada principalmente pelo esforço de protetores independentes, clínicas parceiras e organizações da sociedade civil.
A criação da Secretaria Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal mudou esse cenário.
Em pouco mais de um ano e meio, a pauta da proteção animal passou a contar com uma estrutura permanente voltada ao controle populacional, combate aos maus-tratos, fiscalização, identificação animal, apoio a protetores independentes e incentivo à adoção responsável.
Os resultados começaram a aparecer. Foram mais de 5 mil castrações e 6 mil microchipagens realizadas, além de centenas de adoções, resgates de animais em situação de vulnerabilidade, distribuição de aproximadamente 7 toneladas de ração e apoio direto a 150 protetores independentes, organizações da sociedade civil e famílias em situação de vulnerabilidade.
A atuação da secretaria também ampliou a fiscalização de maus-tratos, resultando em centenas de denúncias apuradas e mais de 200 autuações. Paralelamente, o município passou a investir em ações educativas, campanhas de conscientização, programas de identificação animal, atendimento a animais comunitários e levantamentos técnicos voltados ao planejamento de políticas públicas.
Para a diretora de Saúde Animal da SEBEM, Fernanda Vieira, os números representam apenas o início de um trabalho que precisa ser permanente.
“Não existe outra forma de controlar a superpopulação de cães e gatos além da castração. Nenhum abrigo será suficiente e não existem lares para todos os animais.”
Segundo ela, os resultados mais expressivos serão percebidos a médio e longo prazo.
“Estamos falando de mais de 30 anos sem uma política pública estruturada para a proteção animal. O trabalho que está sendo feito agora é um investimento no futuro.”
A avaliação é compartilhada por quem acompanha a causa há anos. Se antes a proteção animal dependia quase exclusivamente de voluntários, hoje ela passa a contar com uma rede formada por protetores, profissionais da área veterinária, empresários e poder público.
A conta continua chegando
Nenhum dos entrevistados acredita que o abandono será resolvido rapidamente.
Pitty continua recebendo pedidos de ajuda todos os dias.
Paula continua atendendo protetores e realizando castrações.
Clodoaldo continua encontrando animais abandonados e mobilizando empresários para apoiar a causa.
A SEBEM continua ampliando programas e ações voltadas ao controle populacional e à proteção animal.
O problema permanece.
Mas a forma de enfrentá-lo mudou.
Enquanto parte da sociedade continua abandonando animais, deixando de castrar, praticando maus-tratos ou simplesmente se omitindo diante do problema, outras pessoas decidiram assumir responsabilidades que não eram delas.
Protetores alimentam.
Veterinários criam alternativas para ampliar o acesso aos atendimentos.
Empresários apoiam ações de controle populacional e conscientização.
O poder público passa a estruturar políticas permanentes para enfrentar um problema que se acumulou durante décadas.
Nenhuma dessas iniciativas resolve sozinha o abandono.
Mas todas apontam para a mesma conclusão: a proteção animal não depende apenas de compaixão. Depende de gestão, planejamento, responsabilidade compartilhada e da participação de diferentes setores da sociedade.
Porque a conta do abandono continua chegando.
A diferença é que agora existem mais pessoas dispostas a dividi-la
Fernanda Leme é jornalista formada pela UFT, Colunista do Jornal To Em Alta, assessora de comunicação do Municipio de Palmas e atua há mais de 5 anos na causa animal.
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