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Quem está pagando a conta do abandono?

Enquanto animais continuam sendo abandonados, protetores, veterinários, empresários e poder público assumem uma responsabilidade que parece não ter fim.

07/06/2026 às 22h11 Atualizada em 07/06/2026 às 22h35
Por: Fernanda Leme
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A alimentação de cães em situação de rua faz parte da rotina de protetores independentes que atuam em Palmas – Credito: Fernanda Leme
A alimentação de cães em situação de rua faz parte da rotina de protetores independentes que atuam em Palmas – Credito: Fernanda Leme

O Brasil possui o terceiro maior mercado pet do mundo e movimenta bilhões de reais todos os anos. Ao mesmo tempo, milhões de cães e gatos vivem em situação de abandono.

Em Palmas, o problema não aparece apenas nas ruas. Ele chega às clínicas veterinárias, aos grupos de protetores independentes, às empresas que decidem apoiar a causa e, cada vez mais, ao poder público.

O abandono produz uma demanda permanente por alimentação, castrações, atendimentos veterinários, resgates, fiscalização e ações de conscientização. Uma conta que não aparece em planilhas, mas que é dividida diariamente por quem decidiu enfrentar um problema que continua sendo alimentado pela própria sociedade.

Quando o problema chega primeiro aos protetores

Antes mesmo de o carro parar, os gatos começam a surgir.

Alguns saem de terrenos baldios. Outros aparecem atrás de muros, árvores e construções abandonadas. Em poucos minutos, dezenas de animais cercam a protetora independente Lilian Cabral, conhecida em Palmas como Pitty.

Eles reconhecem o som do carro.

Sabem exatamente o horário da alimentação.

Há dez anos, essa cena faz parte da rotina da protetora, que atualmente acompanha cerca de 90 animais entre cães e gatos espalhados por diferentes regiões da Capital.

Toda semana, ela utiliza aproximadamente 25 quilos de ração para gatos e entre 15 e 20 quilos para cães. Os gastos mensais variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil. Os pedidos de ajuda chegam diariamente. Em alguns dias são poucos. Em outros, ultrapassam 20 ou 30 solicitações.

Mas a experiência também ensinou limites.

“Eu não faço resgate de animais. Eu cuido de animais na rua. Meu investimento na causa animal é matar a fome.”

A decisão veio depois de anos acumulando dívidas com tratamentos veterinários e internações.

Hoje, Pitty concentra esforços naquilo que consegue manter financeiramente: alimentação, vermifugação e acompanhamento das colônias.

“Se as protetoras independentes parassem hoje, o número de animais nas ruas aumentaria drasticamente.”

A fala ajuda a explicar uma realidade conhecida por quem atua na proteção animal. O abandono continua acontecendo em ritmo superior à capacidade de resposta de quem tenta minimizar seus efeitos.

Por muito tempo, essa conta ficou quase exclusivamente nas mãos de pessoas como Pitty.

Mas isso começou a mudar.

Cães aguardam a protetora Lilian Cabral para receber alimentação durante uma das rotinas de cuidado realizadas pela voluntária– Credito: Fernanda Leme

Uma demanda que virou oportunidade

Quando iniciou a carreira em Palmas, há mais de 25 anos, a médica veterinária Paula Lima ouviu diversas vezes que atender protetores independentes não era um bom negócio.

Os animais geralmente chegavam em situações complexas, os recursos eram limitados e os tratamentos exigiam negociações constantes.

Mas enquanto muitos profissionais enxergavam um problema, Paula identificou uma demanda que simplesmente não estava sendo atendida.

Ao longo dos anos, passou a desenvolver um trabalho voltado para esse público e se tornou uma das principais referências da Capital quando o assunto é castração.

“Era uma demanda que existia e precisava ser atendida.”

O que começou como uma decisão profissional acabou fortalecendo a própria clínica.

As protetoras passaram a divulgar espontaneamente o trabalho da veterinária, organizar rifas, campanhas e arrecadações para custear procedimentos e indicar novos clientes. O boca a boca ajudou a consolidar sua reputação e ampliar sua atuação no mercado.

Hoje, além dos atendimentos na clínica, Paula também participa voluntariamente dos mutirões promovidos pela Secretaria Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal (SEBEM).

Sua trajetória mostra como uma necessidade social ignorada por grande parte do mercado acabou se transformando em uma área de atuação consolidada, beneficiando animais, protetores e a própria atividade profissional.

A médica veterinária Paula Lima atua há mais de 25 anos em Palmas e é referência em castração de cães e gatos – Credito: Fernanda Leme

Quando empresários decidem fazer parte da solução

Em 2013, o empresário Clodoaldo e a esposa encontraram uma gata com cinco filhotes abandonados na quadra onde moravam.

A princípio, decidiram apenas alimentá-los.

Pouco tempo depois, já acompanhavam sete colônias de gatos e forneciam alimento diariamente para cerca de 60 animais.

Mas logo perceberam que apenas alimentar não resolveria o problema.

“Começamos a capturar esses animais para esterilização. Adotamos muitos deles, mas a conta não fechava. O número de animais nas ruas era muito maior do que conseguíamos abrigar.”

A solução encontrada foi investir na castração e no monitoramento permanente das colônias.

Mais de uma década depois, os resultados começaram a aparecer.

Das sete colônias iniciais, restam quatro. O número de animais caiu para menos de 20.

Além dos gatos, o casal também alimenta cães que vivem próximos à Gabriel Transportes e realiza resgates de animais feridos ou em situação de vulnerabilidade.

Com o passar dos anos, Clodoaldo passou a compartilhar experiências com empresários da região, incentivando a castração, a guarda responsável e o apoio às ações da causa animal.

O problema não desapareceu.

Mas a conscientização aumentou.

Hoje existe uma rede de empresários que contribui com alimentação, transporte, atendimento veterinário e divulgação de campanhas ligadas à proteção animal.

“A palavra convence, mas o exemplo arrasta.”

A experiência mostra que o abandono não é apenas um desafio para protetores e órgãos públicos. É também uma questão que pode mobilizar empresas, gerar redes de colaboração e produzir soluções práticas dentro da própria comunidade.

 Após anos de castrações e monitoramento, colônia de gatos acompanhada por Clodoaldo registra redução no número de animais – Credito: Fernanda Leme

Quando o poder público entra na conta

Durante décadas, a proteção animal em Palmas foi sustentada principalmente pelo esforço de protetores independentes, clínicas parceiras e organizações da sociedade civil.

A criação da Secretaria Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal mudou esse cenário.

Em pouco mais de um ano e meio, a pauta da proteção animal passou a contar com uma estrutura permanente voltada ao controle populacional, combate aos maus-tratos, fiscalização, identificação animal, apoio a protetores independentes e incentivo à adoção responsável.

Os resultados começaram a aparecer. Foram mais de 5 mil castrações e 6 mil microchipagens realizadas, além de centenas de adoções, resgates de animais em situação de vulnerabilidade, distribuição de aproximadamente 7 toneladas de ração e apoio direto a 150 protetores independentes, organizações da sociedade civil e famílias em situação de vulnerabilidade.

A atuação da secretaria também ampliou a fiscalização de maus-tratos, resultando em centenas de denúncias apuradas e mais de 200 autuações. Paralelamente, o município passou a investir em ações educativas, campanhas de conscientização, programas de identificação animal, atendimento a animais comunitários e levantamentos técnicos voltados ao planejamento de políticas públicas.

Para a diretora de Saúde Animal da SEBEM, Fernanda Vieira, os números representam apenas o início de um trabalho que precisa ser permanente.

“Não existe outra forma de controlar a superpopulação de cães e gatos além da castração. Nenhum abrigo será suficiente e não existem lares para todos os animais.”

Segundo ela, os resultados mais expressivos serão percebidos a médio e longo prazo.

“Estamos falando de mais de 30 anos sem uma política pública estruturada para a proteção animal. O trabalho que está sendo feito agora é um investimento no futuro.”

A avaliação é compartilhada por quem acompanha a causa há anos. Se antes a proteção animal dependia quase exclusivamente de voluntários, hoje ela passa a contar com uma rede formada por protetores, profissionais da área veterinária, empresários e poder público.

A médica veterinária Fernanda Vieira durante atendimento a animal assistido por ações da proteção animal no município– Credito: Diogo Paz

A conta continua chegando

Nenhum dos entrevistados acredita que o abandono será resolvido rapidamente.

Pitty continua recebendo pedidos de ajuda todos os dias.

Paula continua atendendo protetores e realizando castrações.

Clodoaldo continua encontrando animais abandonados e mobilizando empresários para apoiar a causa.

A SEBEM continua ampliando programas e ações voltadas ao controle populacional e à proteção animal.

O problema permanece.

Mas a forma de enfrentá-lo mudou.

Enquanto parte da sociedade continua abandonando animais, deixando de castrar, praticando maus-tratos ou simplesmente se omitindo diante do problema, outras pessoas decidiram assumir responsabilidades que não eram delas.

Protetores alimentam.

Veterinários criam alternativas para ampliar o acesso aos atendimentos.

Empresários apoiam ações de controle populacional e conscientização.

O poder público passa a estruturar políticas permanentes para enfrentar um problema que se acumulou durante décadas.

Nenhuma dessas iniciativas resolve sozinha o abandono.

Mas todas apontam para a mesma conclusão: a proteção animal não depende apenas de compaixão. Depende de gestão, planejamento, responsabilidade compartilhada e da participação de diferentes setores da sociedade.

Porque a conta do abandono continua chegando.

A diferença é que agora existem mais pessoas dispostas a dividi-la

Fernanda Leme é jornalista formada pela UFT, Colunista do Jornal To Em Alta, assessora de comunicação do Municipio de Palmas e atua há mais de 5 anos na causa animal.

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