
Uma condição frequentemente associada à dificuldade para engravidar pode ter consequências muito mais amplas para a saúde feminina. A síndrome dos ovários policísticos (SOP) passou a ter uma nova denominação proposta por um consenso internacional: síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP). A mudança, anunciada em maio de 2026, busca ampliar a compreensão sobre a doença e reforçar que seus efeitos não se limitam à fertilidade.
A nova nomenclatura destaca as alterações hormonais e metabólicas que podem acompanhar a condição, como resistência à insulina, risco de diabetes tipo 2 e alterações no colesterol. A previsão é que o novo termo seja incorporado como padrão na atualização da diretriz internacional, prevista para 2028.
Especialistas da Afya Porto Nacional explicam que a mudança não modifica os critérios utilizados para identificar a síndrome, mas representa um avanço na forma de compreender e acompanhar as pacientes.
A endocrinologista Renata Bussuan, coordenadora de curso de pós-graduação da Afya Educação Médica, explica que o nome antigo contribuía para interpretações equivocadas. Muitas mulheres acreditavam que só poderiam ter a síndrome se o ultrassom identificasse cistos nos ovários. Outras recebiam esse resultado no exame e concluíam que tinham a doença, mesmo sem apresentar outros sinais.
Isso porque a presença de ovários com aspecto policístico na ultrassonografia, isoladamente, não confirma o diagnóstico. Da mesma forma, uma mulher pode apresentar a síndrome sem essa característica no exame de imagem.
DIAGNÓSTICO EXIGE MAIS QUE UM ULTRASSOM
A síndrome atinge aproximadamente 10% a 13% das mulheres em idade reprodutiva e pode provocar manifestações como menstruação irregular, acne, aumento de pelos no rosto e no corpo e queda de cabelo.
De acordo com a ginecologista Jeoni Gomes, da Afya Porto Nacional, a investigação considera três critérios principais: alterações na ovulação, sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de hormônios androgênicos e características específicas dos ovários identificadas em exames.
Em mulheres adultas, é necessário apresentar pelo menos dois desses três critérios, após a exclusão de outras condições que possam provocar sintomas semelhantes.
A especialista ressalta que a avaliação médica deve considerar o histórico da paciente, as manifestações clínicas e os resultados dos exames. Quando já existem irregularidade menstrual e sinais de excesso de andrógenos, por exemplo, a ultrassonografia pode nem ser necessária para estabelecer o diagnóstico.
ADOLESCENTES PRECISAM DE ATENÇÃO ESPECIAL
Na adolescência, a identificação da síndrome exige cuidados adicionais. Isso porque alterações no ciclo menstrual podem fazer parte do processo natural de amadurecimento hormonal após a primeira menstruação.
Por isso, irregularidades persistentes precisam ser avaliadas considerando o tempo desde a primeira menstruação e a presença de outros sinais, como excesso de pelos e alterações hormonais.
Nessa faixa etária, a aparência dos ovários na ultrassonografia não deve ser utilizada como critério para confirmar a síndrome. Quando ainda não há elementos suficientes para o diagnóstico, o acompanhamento médico permite observar a evolução dos sintomas sem antecipar conclusões.
SÍNDROME NÃO SIGNIFICA INFERTILIDADE
Uma das principais preocupações das mulheres diagnosticadas com a condição é a possibilidade de não conseguir engravidar. Entretanto, ter a síndrome não significa ser infértil.
A SOP pode provocar dificuldades na ovulação e, consequentemente, reduzir as chances de uma gestação espontânea em determinados períodos. Porém, existem tratamentos que ajudam a regular o ciclo ovulatório e podem favorecer a gravidez.
A escolha da abordagem depende das características de cada paciente, da idade, das condições metabólicas e do desejo de engravidar.
Segundo as especialistas, o acompanhamento também pode envolver mudanças na alimentação, prática de atividade física e medicamentos, quando necessários. A endocrinologista Renata Bussuan destaca que a condição possui componentes genéticos, hormonais e metabólicos e não deve ser associada à falta de força de vontade da paciente.
CUIDADOS DEVEM CONTINUAR MESMO SEM DESEJO DE ENGRAVIDAR
Outro alerta dos especialistas é que o acompanhamento não deve acontecer somente quando a mulher pretende ter filhos.
A condição pode estar associada à resistência à insulina, diabetes tipo 2, alterações nos níveis de colesterol e triglicerídeos e problemas relacionados à pressão arterial. Por isso, a avaliação periódica é importante mesmo para mulheres que não têm planos de gestação.
Outro ponto de atenção são os períodos prolongados sem menstruação. Quando existe ausência persistente de ovulação, o endométrio, tecido que reveste internamente o útero, pode ficar exposto a estímulos hormonais sem a ação regular da progesterona. Isso aumenta o risco de alterações como a hiperplasia endometrial e, em determinadas situações, de câncer de endométrio.
O tratamento é individualizado e pode reunir acompanhamento ginecológico e endocrinológico, orientação nutricional, atividade física, apoio psicológico e medicamentos.
Para as especialistas, a adoção do novo nome reforça uma mudança importante na abordagem da condição: a saúde da mulher precisa ser acompanhada de forma integral e durante todas as fases da vida, independentemente de ela desejar ou não engravidar.
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