Com as matrículas abertas para novos estudantes na rede municipal de Palmas e a posse dos diretores aprovados em concurso, realizada com destaque nesta segunda-feira, 12 de janeiro, inicia-se mais um ciclo para a educação na capital. Momento de expectativa e renovação, que nos convida a refletir com urgência sobre os caminhos que estamos escolhendo para nossas crianças. Todo fim de ano em Palmas repete-se um movimento significativo: famílias saem em busca da melhor instituição educacional para seus filhos. Na Educação Infantil, essa procura ganha contornos ainda mais sensíveis. Confiar os tesouros mais preciosos – crianças tão pequenas – a profissionais inicialmente desconhecidos não é tarefa fácil.
A busca concentra-se naturalmente nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) já conhecidos, onde a confiança foi construída. No entanto, encontrar uma vaga, apesar do número expressivo de unidades, pode tornar-se uma verdadeira saga. A LDB garante a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado, mas essa garantia precisa materializar-se em acesso real para todos.
Minha trajetória nesse universo começou após anos lecionando para turmas do Ensino Fundamental II e Médio, e representou a realização de um sonho antigo. Cada manhã, ao entrar na sala, tenho a certeza de estar no lugar certo. Essa transição não foi apenas uma mudança de etapa, mas de universo. Chegar à educação infantil foi redescobrir o sentido mais puro da profissão. As crianças chegam de braços abertos, com sorrisos sinceros e um “bom dia, tia!” que é a mais genuína das boas-vindas. Às vezes, trazem uma flor colhida no caminho ou uma história simples que, para elas, é um grande acontecimento. Essa troca afetiva e espontânea não tem preço. É esse ouro afetivo, invisível para os algoritmos, que sustenta a verdadeira educação. E ele se perde quando a prioridade vira a foto perfeita para o feed.
Como nos ensina Paulo Freire, “o educador se eterniza em cada ser que educa”. Na educação infantil, essa eternização acontece nos gestos mais simples, no afeto construído dia após dia. É no nível do olhar, no chão da sala, no meio da brincadeira, que a verdadeira conexão acontece. É também por isso que, como educadora, sempre defendi que precisamos conhecer com muito acolhimento a realidade em que vivem nossas crianças, suas famílias e as particularidades pertinentes ao processo de ensino e aprendizagem. Essa escuta sensível é o ponto de partida de qualquer vínculo verdadeiro.
O recente concurso trouxe novos talentos para as unidades. Muitos dos aprovados possuem vasta experiência em outras áreas. Essa diversidade enriquece o coletivo, mas também apresenta um desafio: transpor essa bagagem para a realidade singular da primeira infância, que exige um olhar sensível, lúdico e integral. Nessa etapa, o trabalho pedagógico ganha vida através de projetos que valorizam a exploração, as vivências e o brincar. Guiamo-nos pelos cinco Campos de Experiência da BNCC, construindo identidade, expressando emoções, desenvolvendo criatividade, tecendo linguagens e decifrando o mundo que nos cerca.
É nessa sintonia que projetos como “Tesouros do Tocantins” ganham profundidade. Ao apresentar a história e as belezas de Natividade, minha cidade natal, não apenas compartilhei cultura, mas ativei múltiplas aprendizagens. Expandimos para outros símbolos: as dunas do Jalapão, a boneca karajá, o capim dourado e a culinária regional. Por meio de rodas de conversa, lendas e criações artísticas, as crianças não apenas “estudaram” o Tocantins – elas o vivenciaram. Como disse Freire, “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.
Contudo, não podemos ignorar os desafios que se escondem por trás dos holofotes. O aumento no número de crianças com diagnósticos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) demanda uma formação sensível e inclusiva. A Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelecida pelo Decreto Nº 12.686 de 2025, tem como base “a inclusão em classes e escolas comuns da rede regular, com o apoio necessário à participação, à permanência e à aprendizagem de todos os estudantes”.
Isso nos leva a uma pergunta fundamental nos CMEIs: os cuidadores, professores e orientadores possuem a formação específica para atuar com a segurança que essa missão exige? A legislação recente estabelece, pela primeira vez, uma carga horária mínima de 80 horas para a formação do professor de atendimento especializado e do profissional de apoio. No entanto, para o professor regente – aquele que está no dia a dia com a turma –, não há uma exigência nacional semelhante.
A qualificação depende, assim, de iniciativas locais de formação continuada e da busca individual por especialização. Estudos reforçam que a capacitação constante é o pilar para uma inclusão bem-sucedida. O próprio Ministério da Educação oferece, por exemplo, uma formação autoinstrucional de 200 horas para profissionais da Educação Infantil, totalmente gratuita e online, que já recebeu mais de 232 mil matrículas em todo o país (acesso pelo portal avamec.mec.gov.br).
Mas quantos profissionais em Palmas conhecem essa ferramenta? E, conhecendo, quantos de fato a utilizam? Esse apoio exige tempo, formação específica e, acima de tudo, a compreensão de que a inclusão verdadeira acontece nas pequenas adaptações do cotidiano. Precisamos, no entanto, falar do desvio silencioso que ameaça esse chão sagrado: a sedução pela pedagogia do feed. Enquanto a corrida por visibilidade, por likes e por reconhecimento digital se intensifica, corremos o risco de trocar o essencial pelo acessório.
No ritmo frenético de produzir conteúdo que “pareça” aprendizagem, esquecemos que a verdadeira aprendizagem acontece. Ela não cabe num feed, não se rende a um like. Seu palco é o território intransferível da relação humana – no toque que acalma, no olho no olho que confirma, no conflito mediado que ensina. O foco, insisto, não pode ser a imagem imaculada da atividade; tem de ser, sempre, a criança real que a realiza.
Apesar das tensões, a transformação é diária e silenciosa. É gratificante ver o brilho nos olhos durante uma história ou o orgulho em um desenho. Trabalhar no CMEI Sonho de Criança, no setor Morada do Sol I, em Taquaralto, tem me mostrado que a educação infantil é, acima de tudo, um exercício de reaprender, acolhimento e humanidade.
Sonhamos, sim. Mas sonhar não basta. Palmas já construiu a referência: a estrutura, a competência docente e os projetos inspiradores estão lá. O que falta agora é uma decisão coletiva e corajosa. O desafio final não é pedagógico, mas ético: escolher, dia após dia, qual brilho vamos alimentar. Se vamos cultivar o brilho efêmero das telas – que consome atenção e exige performance – ou se vamos proteger e priorizar o brilho atemporal e inquieto que acende nos olhos de uma criança quando ela finalmente entende, se sente acolhida ou simplesmente se descobre capaz.
A infraestrutura está pronta. A pergunta que fica é: temos a audácia de desligar os holofotes para enxergar melhor?
Nágila Sávia Souza Quintanilha
Professora efetiva da rede municipal de Palmas e de Santa Rosa do Tocantins. Atua também como Secretária de Saúde do Servidor no Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Tocantins (SINTET) – Regional de Porto Nacional. É licenciada em Letras (UNITINS) e em Pedagogia (UNIFAVENI), com especializações em Língua Portuguesa e Literaturas e em Orientação e Supervisão Escolar na Educação Infantil. Atualmente, é mestranda em Linguística Aplicada pela Universidade Federal do Tocantins (UFT – Campus de Porto Nacional).











Educação Estudante de Araguatins conquista 1º lugar em concurso de cartas dos Correios
Educação Prazo para pedir isenção da inscrição do Enem 2026 termina hoje
Educação Encontro debate importância do ensino de jornalismo diante de IA
Educação Justiça determina retorno de diretora afastada após polêmica em Gurupi
História Por que 21 de abril é feriado no Brasil? Entenda a importância de Tiradentes para a história do país
Educação Enem 2026: saiba a documentação para justificar ausência em 2025