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Educação inclusiva exige formação, ética e menos holofotes

Entre avanços legais e desafios cotidianos, inclusão verdadeira na educação infantil depende de capacitação contínua, compromisso humano e escolhas éticas que vão além da visibilidade digital

13/01/2026 às 10h31
Por: Nágila Sávia Souza Quintanilha
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Foto: Reprodução Instagram
Foto: Reprodução Instagram

Com as matrículas abertas para novos estudantes na rede municipal de Palmas e a posse dos diretores aprovados em concurso, realizada com destaque nesta segunda-feira, 12 de janeiro, inicia-se mais um ciclo para a educação na capital. Momento de expectativa e renovação, que nos convida a refletir com urgência sobre os caminhos que estamos escolhendo para nossas crianças. Todo fim de ano em Palmas repete-se um movimento significativo: famílias saem em busca da melhor instituição educacional para seus filhos. Na Educação Infantil, essa procura ganha contornos ainda mais sensíveis. Confiar os tesouros mais preciosos – crianças tão pequenas – a profissionais inicialmente desconhecidos não é tarefa fácil.

A busca concentra-se naturalmente nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) já conhecidos, onde a confiança foi construída. No entanto, encontrar uma vaga, apesar do número expressivo de unidades, pode tornar-se uma verdadeira saga. A LDB garante a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado, mas essa garantia precisa materializar-se em acesso real para todos.

Minha trajetória nesse universo começou após anos lecionando para turmas do Ensino Fundamental II e Médio, e representou a realização de um sonho antigo. Cada manhã, ao entrar na sala, tenho a certeza de estar no lugar certo. Essa transição não foi apenas uma mudança de etapa, mas de universo. Chegar à educação infantil foi redescobrir o sentido mais puro da profissão. As crianças chegam de braços abertos, com sorrisos sinceros e um “bom dia, tia!” que é a mais genuína das boas-vindas. Às vezes, trazem uma flor colhida no caminho ou uma história simples que, para elas, é um grande acontecimento. Essa troca afetiva e espontânea não tem preço. É esse ouro afetivo, invisível para os algoritmos, que sustenta a verdadeira educação. E ele se perde quando a prioridade vira a foto perfeita para o feed.

Como nos ensina Paulo Freire, “o educador se eterniza em cada ser que educa”. Na educação infantil, essa eternização acontece nos gestos mais simples, no afeto construído dia após dia. É no nível do olhar, no chão da sala, no meio da brincadeira, que a verdadeira conexão acontece. É também por isso que, como educadora, sempre defendi que precisamos conhecer com muito acolhimento a realidade em que vivem nossas crianças, suas famílias e as particularidades pertinentes ao processo de ensino e aprendizagem. Essa escuta sensível é o ponto de partida de qualquer vínculo verdadeiro.

O recente concurso trouxe novos talentos para as unidades. Muitos dos aprovados possuem vasta experiência em outras áreas. Essa diversidade enriquece o coletivo, mas também apresenta um desafio: transpor essa bagagem para a realidade singular da primeira infância, que exige um olhar sensível, lúdico e integral. Nessa etapa, o trabalho pedagógico ganha vida através de projetos que valorizam a exploração, as vivências e o brincar. Guiamo-nos pelos cinco Campos de Experiência da BNCC, construindo identidade, expressando emoções, desenvolvendo criatividade, tecendo linguagens e decifrando o mundo que nos cerca.

É nessa sintonia que projetos como “Tesouros do Tocantins” ganham profundidade. Ao apresentar a história e as belezas de Natividade, minha cidade natal, não apenas compartilhei cultura, mas ativei múltiplas aprendizagens. Expandimos para outros símbolos: as dunas do Jalapão, a boneca karajá, o capim dourado e a culinária regional. Por meio de rodas de conversa, lendas e criações artísticas, as crianças não apenas “estudaram” o Tocantins – elas o vivenciaram. Como disse Freire, “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Contudo, não podemos ignorar os desafios que se escondem por trás dos holofotes. O aumento no número de crianças com diagnósticos como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) demanda uma formação sensível e inclusiva. A Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, estabelecida pelo Decreto Nº 12.686 de 2025, tem como base “a inclusão em classes e escolas comuns da rede regular, com o apoio necessário à participação, à permanência e à aprendizagem de todos os estudantes”.

Isso nos leva a uma pergunta fundamental nos CMEIs: os cuidadores, professores e orientadores possuem a formação específica para atuar com a segurança que essa missão exige? A legislação recente estabelece, pela primeira vez, uma carga horária mínima de 80 horas para a formação do professor de atendimento especializado e do profissional de apoio. No entanto, para o professor regente – aquele que está no dia a dia com a turma –, não há uma exigência nacional semelhante.

A qualificação depende, assim, de iniciativas locais de formação continuada e da busca individual por especialização. Estudos reforçam que a capacitação constante é o pilar para uma inclusão bem-sucedida. O próprio Ministério da Educação oferece, por exemplo, uma formação autoinstrucional de 200 horas para profissionais da Educação Infantil, totalmente gratuita e online, que já recebeu mais de 232 mil matrículas em todo o país (acesso pelo portal avamec.mec.gov.br).

Mas quantos profissionais em Palmas conhecem essa ferramenta? E, conhecendo, quantos de fato a utilizam? Esse apoio exige tempo, formação específica e, acima de tudo, a compreensão de que a inclusão verdadeira acontece nas pequenas adaptações do cotidiano. Precisamos, no entanto, falar do desvio silencioso que ameaça esse chão sagrado: a sedução pela pedagogia do feed. Enquanto a corrida por visibilidade, por likes e por reconhecimento digital se intensifica, corremos o risco de trocar o essencial pelo acessório.

No ritmo frenético de produzir conteúdo que “pareça” aprendizagem, esquecemos que a verdadeira aprendizagem acontece. Ela não cabe num feed, não se rende a um like. Seu palco é o território intransferível da relação humana – no toque que acalma, no olho no olho que confirma, no conflito mediado que ensina. O foco, insisto, não pode ser a imagem imaculada da atividade; tem de ser, sempre, a criança real que a realiza.

Apesar das tensões, a transformação é diária e silenciosa. É gratificante ver o brilho nos olhos durante uma história ou o orgulho em um desenho. Trabalhar no CMEI Sonho de Criança, no setor Morada do Sol I, em Taquaralto, tem me mostrado que a educação infantil é, acima de tudo, um exercício de reaprender, acolhimento e humanidade.

Sonhamos, sim. Mas sonhar não basta. Palmas já construiu a referência: a estrutura, a competência docente e os projetos inspiradores estão lá. O que falta agora é uma decisão coletiva e corajosa. O desafio final não é pedagógico, mas ético: escolher, dia após dia, qual brilho vamos alimentar. Se vamos cultivar o brilho efêmero das telas – que consome atenção e exige performance – ou se vamos proteger e priorizar o brilho atemporal e inquieto que acende nos olhos de uma criança quando ela finalmente entende, se sente acolhida ou simplesmente se descobre capaz.

A infraestrutura está pronta. A pergunta que fica é: temos a audácia de desligar os holofotes para enxergar melhor?

 

 

 

                                                                 Nágila Sávia Souza Quintanilha 

Professora efetiva da rede municipal de Palmas e de Santa Rosa do Tocantins. Atua também como Secretária de Saúde do Servidor no Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Tocantins (SINTET) – Regional de Porto Nacional. É licenciada em Letras (UNITINS) e em Pedagogia (UNIFAVENI), com especializações em Língua Portuguesa e Literaturas e em Orientação e Supervisão Escolar na Educação Infantil. Atualmente, é mestranda em Linguística Aplicada pela Universidade Federal do Tocantins (UFT – Campus de Porto Nacional).

                                                                                       

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