A rápida expansão urbana de Palmas, capital do Tocantins, tem colocado em evidência um debate estratégico: como planejar adequadamente os estabelecimentos de saúde em uma cidade que cresce em ritmo acelerado? O tema é abordado no estudo “Desafios da Arquitetura Hospitalar em Regiões de Expansão Urbana: o caso de Palmas – TO”, assinado por Lorany Silva de Moura, engenheira civil, graduanda em Arquitetura e Urbanismo e pós-graduanda em Projetos de Arquitetura para Estabelecimentos de Saúde pelo INBEC.
O artigo analisa como o crescimento territorial e populacional da capital impacta diretamente o planejamento e a implantação dos chamados Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS), destacando a necessidade de integração entre planejamento urbano e planejamento em saúde.
Cidade planejada, crescimento acelerado
Fundada em 1989, Palmas é considerada uma das últimas capitais planejadas do Brasil. Mesmo concebida sob princípios modernos de urbanismo, a dinâmica de crescimento frequentemente supera as previsões originais. A criação de novos bairros, a valorização imobiliária e a formação de polos residenciais descentralizados têm gerado novas demandas por serviços públicos, especialmente na área da saúde.
Segundo o estudo, quando a expansão urbana ocorre sem previsão adequada da rede assistencial, o resultado é a sobrecarga das unidades existentes e a dificuldade de implantação estratégica de novos equipamentos hospitalares.
A arquitetura hospitalar, nesse contexto, assume papel central. Mais do que projetar edifícios, trata-se de pensar estruturas adaptáveis, com possibilidade de expansão futura e integração eficiente com a malha urbana.
Ausência de diretrizes específicas para saúde
Um dos principais pontos levantados pela pesquisa é a falta de diretrizes urbanísticas específicas voltadas aos EAS em muitos municípios brasileiros. Hospitais e unidades de saúde possuem demandas técnicas complexas, desde requisitos sanitários até infraestrutura robusta de água, energia e esgotamento, que precisam ser consideradas ainda na fase de planejamento territorial.
A inexistência de áreas previamente reservadas para expansão hospitalar pode comprometer a longevidade funcional das unidades. Estruturas rígidas e implantadas em locais sem previsão de crescimento tendem a enfrentar limitações físicas e operacionais ao longo do tempo.
Para a autora, a flexibilidade deve ser um princípio organizador da arquitetura hospitalar contemporânea, prevendo modularidade, ampliação futura e conexão eficiente com redes públicas de infraestrutura.
Impactos no acesso e na equidade
Acesso territorial
A localização estratégica dos equipamentos de saúde influencia diretamente o acesso da população. Bairros periféricos sem mobilidade estruturada ampliam barreiras ao atendimento, dificultando consultas, exames e atendimentos de urgência.
Quando hospitais ficam concentrados em áreas centrais ou valorizadas, moradores de regiões mais afastadas enfrentam deslocamentos longos, custos elevados e maior vulnerabilidade social.
Infraestrutura urbana
Hospitais demandam redes robustas de abastecimento e saneamento. Implantar unidades em áreas com infraestrutura precária aumenta riscos operacionais e custos de manutenção, além de impactar a segurança do paciente e a qualidade da assistência.
Desigualdade territorial
A distribuição espacial dos serviços de saúde também reflete decisões econômicas e políticas. A concentração de equipamentos em regiões específicas pode perpetuar desigualdades e ampliar distâncias entre oferta e demanda.
Palmas como laboratório urbano
Por ser uma cidade jovem e ainda em consolidação, Palmas apresenta uma oportunidade estratégica: integrar de forma planejada as políticas de desenvolvimento urbano e a organização da rede de saúde.
A incorporação de diretrizes específicas no Plano Diretor , como reserva territorial para EAS, critérios técnicos de localização e exigência de infraestrutura compatível, pode transformar a capital tocantinense em referência nacional em planejamento territorial voltado à saúde.
Arquitetura hospitalar como instrumento de justiça espacial
O estudo conclui que o crescimento acelerado da cidade impõe desafios relevantes à arquitetura hospitalar, exigindo abordagem integrada entre urbanismo e planejamento assistencial.
Mais do que edifícios funcionais, hospitais devem ser pensados como equipamentos estratégicos de organização territorial. Quando articulada ao planejamento urbano, a arquitetura hospitalar torna-se instrumento de promoção da justiça espacial, da eficiência operacional e da sustentabilidade a longo prazo.
Em uma cidade que continua a crescer e se transformar, planejar a saúde com visão territorial não é apenas uma questão técnica, é um compromisso com o futuro e com a qualidade de vida da população.
