Em minha última divagação afirmei que “o Brasil não sabe fazer cinema”, não da forma convencional e esperada pelo mainstream ou pelo público de massa. A última premiação do Oscar foi um balde de água fria em quem estava torcendo pelas categorias que haviam brasileiros disputando e um galão de gasolina na fogueira de haters que sempre torceram contra as produções nacionais.
A derrota de O Agente Secreto na maior premiação de cinema do mundo gerou uma série de comentários negativos e memes sobre a obra, uma forma de ridicularizar o filme que coloca a ideologia acima da arte. O argumento mais utilizado foi: se o filme fosse bom teria ganhado. Isso gera o seguinte questionamento: o cinema brasileiro é tão ruim a ponto de ter apenas um filme (Ainda Estou Aqui) digno de reconhecimento, pois este ganhou um Oscar?
“Mas o Oscar de ‘Ainda Estou Aqui’ foi comprado”. Não poderiam ter comprado a premiação para Tropa de Elite, Cidade de Deus e tantos outros filme bons que temos no nosso país? Isso me parece apenas pessoas desinteressadas e incapazes de compreender algo simples: a premiação é importante, mas o caminho até lá é muito mais.
Não conquistar uma estatueta do Oscar não é um sinal de que a obra não é boa. A saga Harry Potter, por exemplo, teve oito filmes, diversas indicações nas mais diversas categorias, mas nunca ganhou o prêmio. Alfred Hitchcock, diretor de grandes clássicos no gênero de terror, nunca teve reconhecimento nas indicações que suas produções tiveram. O único prêmio que recebeu foi pelo conjunto de sua obra. Se Hitchcock não tem um Oscar para ser um bom diretor, Cleber Mendonça também não precisa (mas chegar a ser indicado mais vezes é importante para reforçar que seu trabalho é relevante pelo menos para a academia). Além disso, quantos outros filmes nacionais e internacionais são excelentes e nem sequer foram indicados? O ódio pela nossa produção não é técnico ou estético, mas político/ideológico. Nosso cinema é celebrado lá fora, mas pouco valorizado em sua própria casa.
A consolidação do cinema brasileiro vem sendo conquistada ao longo de um trabalho de décadas. Chegamos algumas vezes ao Globo de Ouro e ao Oscar, mas a é a primeira vez que somos indicados por dois anos consecutivos. Esse ano não levamos o troféu, mas estamos conquistando os espaços e colocando o cinema brasileiro na primeira prateleira do cinema mundial.
O Agente Secreto foi indicado às categorias de melhor seleção de elenco, melhor ator, melhor filme e melhor filme internacional. Nessa última categoria cabe uma pequena crítica: um filme holandês com a maioria dos atores americanos já acostumados com a academia do Oscar é um pouco estranho. A categoria de melhor filme estrangeiro tem se tornado um quintal de co-produções européias, dessa forma, acredito que a categoria precise melhorar seus critérios quanto a seleção de filmes para a premiação. Isso reforça o quanto o Oscar não é apenas sobre cinema, mas sobre Lobby e divulgação.
Mais um ano sendo indicado a grandes premiações do cinema internacional é uma grande vitória para o audiovisual do nosso país. É o olhar de investidores e produtores para o cinema brasileiro. Enquanto o hater se ocupa em falar mal da produção, o filme brasileiro está ocupando os espaços conquistando prêmios e fazendo história. A ótica do hater observa apenas a posição política do diretor e dos atores e ignora o que aparece na tela. Isso não significa que o filme não tenha viés, mas é muito chato assistir somente o que nos conforta e não nos faz refletir minimamente depois que a sessão termina.
O Brasil não sabe fazer o cinema que o “patriota” espera, mas faz o cinema que o mundo respeita.
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