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Adeus a Seu Augusto: centenário deixa legado de fé, histórias e união familiar no Tocantins

Aos 101 anos, patriarca da família Menezes é lembrado pela sabedoria, simplicidade e pelas memórias marcantes compartilhadas com filhos, netos e amigos

21/03/2026 às 11h34
Por: Nágila Sávia Souza Quintanilha
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Foto: Reprodução Instagram
Foto: Reprodução Instagram

A manhã chegou chuvosa em Palmas, daquelas chuvas que caem depois de um calorão o dia todo. Abri os olhos e, pela janela transparente, vi a água caindo, e aquele som maravilhoso que traz paz me encheu de ânimo. Há dois dias, sonhei com multidão e banquete. E sempre que tenho esse sonho, alguém próximo e querido parte. Hoje, às 7h30, as redes sociais me trouxeram a notícia que eu não queria ler: o saudoso Senhor Augusto Ferreira de Menezes, bisavô paterno das minhas filhas Emanuela e Marcella, netas de Quinka e Ivonet e filhas do Ranjel, nos deixou.


Seu Augusto era o esposo da nossa inesquecível tia Sinharinha mulher de fé, bondosa, batalhadora, uma guerreira à frente do seu tempo. Pai de muitos filhos, alguns já na casa do Pai, ele carregava com dignidade a dor de ter perdido a companheira de uma vida e tantos da sua descendência. Era triste ver um pai idoso, tão firme, sustentando esse peso em silêncio. Mas ele se mantinha de pé. Sempre se manteve. Como uma árvore centenária que já viu muitos temporais passar e continua ali, de raiz firme, dando sombra a quem precisa.

Seu Augusto foi um esteio da grande família Menezes, família tradicional da nossa querida Santa Rosa do Tocantins. Partiu aos 101 anos, centenário vivido com intensidade, testemunha de muitas lutas e muitas conquistas. Viveu um século inteiro viu o mundo mudar, viu chegarem a luz elétrica, a televisão, o carro, viu os filhos crescerem, partirem, alguns voltarem para a casa do Pai antes dele. E ainda assim, permaneceu firme. Agora, finalmente, descansou. Deixou o legado de um homem de dignidade, caráter, honestidade e fé e ensinou, a todos os seus descendentes, o valor do trabalho e da palavra dada.


Lembro quando ia visitá-lo com minhas filhas  ainda pequenas, e depois já na adolescência. A mesa do café estava sempre posta, com bolinhos da região, como se ele estivesse sempre esperando a gente. Ele, sempre atencioso, dizia: "Toma um cafezinho, minha fia, que eu sei que você gosta. Cadê seus pais? Faz tempo que não vejo eles." E eu respondia que estavam bem. Então, com a memória já falhando, ele contava de novo — e eu ouvia de novo, como se fosse a primeira vez a história da coragem do meu pai, seu Jonan da Costa Quintanilha, nos tempos de cobrador de ônibus da Transbrasiliana, na linha Natividade a Porto Nacional, lá pelos anos 80.


Contava que, certa ocasião, com a ponte quebrada no rio Formiguinha, meu pai atravessou todas as mulheres, crianças, idosos e quem não sabia nadar para a outra margem, onde outro ônibus os esperava. E ele dizia: "Seu pai era novo, mas o que me chamava a atenção não era só a coragem  porque o rio naquele trecho era fundo, mas a bondade do coração dele em ajudar os outros. Eu tava lá, minha fia, e fiquei admirado com a coragem e a bondade do seu pai."
Eu ali, ouvindo com os olhos cheios d'água, sentindo orgulho do meu velho, mas também muito grata pelo carinho com que seu Augusto guardava e repetia essa memória. E quando, noutro dia, ele esquecia que já tinha me contado e repetia tudo outra vez, eu me emocionava novamente não só pela história, mas pela lucidez com que ele a revivia, como se estivesse vendo meu pai ali, na beira daquele rio, ajudando o próximo.


Eu gostava de prosear com ele e ouvir os causos de antigamente. Ele contava como era difícil criar os filhos, porque não tinha condição de dar boa roupa e calçado, era uma dificuldade danada, sem água encanada, sem energia elétrica, tudo era na força do braço. "A gente acordava de madrugada, minha fia, e já ia pro roçado. Menino criado com respeito e com trabalho, que é pra não perder tempo com coisa errada." Contava da luta que foi comprar a primeira TV, o primeiro carro uma camionete que ele mesmo consertava com as próprias mãos  e dos namoros da juventude, do tempo em que se pedia a moça em casamento na porta da casa dos pais, de chapelão na mão.


Depois, mudando o tom, ele olhava pra mim com aqueles olhos que já tinham visto tanto e dizia: "Esse mundo tá perdido, minha fia. Você tem filhas lindas e abençoadas. Cria suas filhas com cuidado e proteção, pro bom caminho. É o que importa." E ele enchia os olhos d'água, e os meus também. E se enchem agora, ao lembrar desse conselho. Porque ele não era só um velho contador de causos  ele era um sábio que queria o bem de todo mundo, que sabia que o tempo passa, mas os valores que a gente planta nos filhos são o que fica.


A vida, com seus caminhos, às vezes nos distancia das pessoas que aprendemos a gostar, admirar e com quem convivemos por um tempo. A correria do dia a dia, os compromissos, a distância  tudo vai levando a gente pra longe, mesmo sem querer. Mas eu e minhas filhas sempre fomos muito bem acolhidas por
todos da família Menezes, por quem tenho profunda admiração e gratidão. Em cada visita, em cada encontro, em cada "cafezinho, minha fia", a gente sentia que era bem-vinda, que fazia parte daquela história.


Seu Augusto é dessas pessoas que ficam — como uma raiz firme que não se vê, mas sustenta a árvore inteira. A árvore pode balançar com o vento, pode perder folhas no inverno, mas enquanto a raiz está firme, ela não cai. Ele foi essa raiz para os Menezes. E agora que ele se foi, a árvore continua de pé, porque o que ele plantou em cada filho, neto, bisneto, em cada pessoa que teve a sorte de cruzar seu caminho, isso ninguém arranca. Isso fica. Ele estará sempre presente em nossas melhores recordações, sempre lembrado com carinho  na mesa do café, nos bolinhos da região, nas histórias do rio Formiguinha, nos conselhos sobre criar os filhos "pro bom caminho".


Que toda a família e cada um dos familiares recebam meu abraço afetuoso neste momento de saudade. Que vocês encontrem conforto nas lembranças, na certeza de que ele viveu bem, viveu muito, viveu com dignidade e deixou um exemplo que atravessa gerações. E que, nos dias difíceis que virão, vocês possam sentir a raiz firme que ele plantou — aquela que sustenta, que acolhe, que não deixa ninguém cair.


E como diz o verso da canção: "Seu Augusto, qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar." Num lugar onde não há mais despedidas, onde a mesa do café está sempre posta e as histórias não precisam ser repetidas porque todo mundo já sabe de cor, mas ouve outra vez com o mesmo sorriso.
Até lá, seu Augusto. E obrigada por tudo.

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