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“O Brasil não sabe fazer cinema”

A coragem do anticlímax que não precisa de final feliz para ser épico

05/03/2026 às 16h15
Por: Danilo Rodrigues
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“O Brasil não sabe fazer cinema”

O cinema brasileiro atual está em seu auge. Em 2025 tivemos o primeiro Oscar genuinamente brasileiro com o filme Ainda Estou Aqui e, em 2026, podemos conquistar mais estatuetas com o filme O Agente Secreto. O mercado audiovisual brasileiro tem recebido notoriedade através do mundo e nossos profissionais têm conquistado espaço em produções fora do nosso país, como o brasileiro Adolpho Veloso indicado ao Oscar de melhor fotografia com o filme Sonhos de TremAinda assim, o Brasil não sabe fazer cinema, não da forma “convencional”.

Normalmente, os filmes com maiores bilheterias e investimentos da indústria internacional utilizam na construção de seus roteiros um formato conhecido como “Jornada do Herói”, que possui basicamente 3 atos: Partida - a vida cotidiana como contexto e ambientação; Iniciação - início dos desafios com o chamado para a aventura; e Retorno - a volta do herói para casa). No fim, o enredo costuma ser resolvido com êxito.

Existem diversas formas de escrita de roteiros, e o cinema brasileiro pode até se utilizar dessa fórmula, mas há uma característica em nossos filmes que faz com que nossa dramaturgia seja diferente das demais: a história nem sempre se desenvolve ou se resolve da maneira como esperamos.

  • Central do Brasil: Josué não encontra seu pai e Dora volta para o Rio de Janeiro depois de deixar o menino em segurança com o irmão.

  • Tropa de Elite: “O sistema é foda”. Os policiais do Bope não conseguem combater o crime organizado nem a corrupção policial.

  • Ainda Estou Aqui: por ser baseado em fatos reais, Rubens Paiva nunca voltou para casa, e Eunice Paiva nunca pôde enterrar o marido.

  • O Agente Secreto: [ALERTA DE SPOILER] Não era um agente secreto e não conseguiu as informações que queria.

Note que esses filmes possuem particularidades que vão além do destaque em grandes premiações nacionais e internacionais: o enredo nos leva para uma revelação final não resolutiva mais próxima da realidade que tende a ser anticlímax em alguns casos. Essa característica não é um defeito, mas uma escolha de não oferecer soluções fáceis para problemas complexos; além disso pode ter relação com a realidade brasileira em que os ditos vilões geralmente estão no poder.

No cinema americano, por exemplo, Josué teria encontrado seu pai; Capitão Nascimento teria acabado com o crime organizado e a corrupção policial; Eunice Paiva teria pelo menos enterrado o marido; Armando seria um agente policial nível Missão Impossível.

O cinema brasileiro não se limita a contar uma história comovente, bonita e com um final feliz. Nosso cinema é capaz de mostrar a beleza e nos comover em situações cotidianas, como em Que Horas Ela Volta?. Antes de assistir esse filme, não imaginava como a história de uma vestibulanda seria tão interessante e, novamente, o final ainda consegue nos surpreender por não se limitar a mostrar a vitória da vestibulanda, mas a liberdade de sua mãe. Com isso, podemos afirmar que o Brasil sabe sim fazer cinema, mas sem se limitar a ser previsível em seu roteiro.

O cenário audiovisual brasileiro, já consolidado nacionalmente, está ganhando cada vez mais espaço nacionalmente. Isso não se deve à qualidade técnica das produções ou atuações. Acredito que parte dessa notoriedade internacional seja pelas histórias cativantes e nada tradicionais.

O Brasil sabe sim fazer cinema. A linguagem adotada por esses filmes premiados não é uma “regra de ouro” que não pode ser subvertida. Há público interessado em assistir um filme leve de comédia pastelão como Minha Mãe é Uma Peça apenas para se divertir e distrair um pouco, mas também há o público que prefere histórias mais densas e que necessitam de reflexão. Há público para os dois tipos de produção, mas ganhamos destaque pelas histórias envolventes e imprevisíveis, característica que o nosso cinema sabe fazer muito bem.

A produção nacional e suas histórias eloquentes estão colocando nas telas a realidade brasileira, colocando o brasileiro em evidência. Estamos nos acostumando a nos ver nos filmes que contam nossas histórias e nossos contextos sem precisar importar obras enlatadas. Isso sim é fazer cinema.

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