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Entre plantões e pressão, médicos também enfrentam os efeitos de uma rotina que cobra caro

Jornadas extensas, privação de sono, alimentação desregulada e pouco tempo para o autocuidado podem aumentar o desgaste físico e emocional dos profissionais.

23/09/2026 às 12h53
Por: Sirleyva Braz
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Foto: Divulgação
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Enquanto dedicam grande parte da rotina a cuidar da saúde de outras pessoas, muitos médicos acabam deixando o próprio bem-estar em segundo plano. Plantões sucessivos, poucas horas de sono, pressão por decisões rápidas, alimentação inadequada e a dificuldade de encontrar tempo para atividades físicas podem transformar o desgaste profissional em um problema que ultrapassa o simples cansaço.

A rotina médica envolve muito mais do que consultas e atendimentos. Dependendo da área de atuação, o profissional também precisa lidar com emergências, gestão de equipes, responsabilidades administrativas, atualização constante e situações que envolvem diretamente a vida dos pacientes. Em escalas intensas, o intervalo entre uma jornada e outra nem sempre é suficiente para a recuperação física e mental.

Para o médico especialista em Nutrologia, Dr. Jhones Araújo, a combinação desses fatores pode aumentar a vulnerabilidade dos profissionais a problemas de saúde mental.

“O profissional que trabalha com plantões e tem essa carga intensa mal tem tempo para cuidar da própria saúde. Ele, muitas vezes, não consegue fazer uma atividade física, não consegue fazer uma caminhada e continua com privação do sono. Com essa carga intensa, ele fica mais vulnerável a quadros de ansiedade, estresse e depressão”, explica.

Quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço

A preocupação aumenta quando os sinais começam a persistir ou interferir na vida pessoal e profissional. Ansiedade frequente, crises de pânico, medo de retornar ao plantão, alterações no sono e dificuldade de se relacionar podem indicar que é necessário buscar ajuda.

O especialista chama atenção para uma dificuldade comum entre profissionais da área: a resistência em reconhecer que também precisam de cuidados.

“Quando o médico começa a observar quadros de ansiedade, pânico, medo de ir ao plantão ou até medo de conversar com pessoas, isso já acende um alerta. Esse profissional precisa entender que não precisa enfrentar isso sozinho e que o acompanhamento com outros profissionais, como psicólogos, também é importante”, afirma.

Outro risco apontado é a automedicação. O uso de medicamentos por conta própria para tentar controlar ansiedade, insônia ou outros sintomas pode trazer consequências e não substitui uma avaliação adequada. A situação exige atenção ainda maior quando são utilizados medicamentos capazes de provocar sonolência ou alterações no estado de consciência.

Sono, alimentação e atividade física entram na conta

O desgaste não fica restrito à saúde emocional. A privação de sono, o estresse constante, a alimentação desregulada e a falta de atividade física também podem favorecer alterações físicas, incluindo ganho de peso e redução da qualidade de vida.

Mesmo diante de uma agenda apertada, o Dr. Jhones defende que o autocuidado seja incorporado à rotina do profissional.

“Mesmo tendo uma rotina intensa, fazendo plantões e com sobrecarga de trabalho, o médico precisa ter um tempo para ele. É importante fazer atividade física, musculação ou cardio, dormir bem no período que tiver disponível e se alimentar corretamente”, orienta.

A alimentação durante os plantões também merece atenção. Jornadas noturnas e horários irregulares podem aumentar a fome e facilitar o consumo de alimentos menos saudáveis. Segundo o especialista, organizar previamente a alimentação pode ajudar a evitar esse padrão e reduzir riscos associados ao ganho de peso e à compulsão alimentar.

A importância de respeitar os próprios limites

Para o especialista, a organização da escala também deve fazer parte da estratégia de preservação da saúde. A busca por maior renda por meio de plantões sucessivos, quando ultrapassa os limites de descanso, pode comprometer a qualidade de vida.

“Tudo isso precisa de estratégia: controlar o estresse, dormir o período que tiver para dormir, dormir bem e se alimentar corretamente. É importante ter uma escala que seja favorável para ter qualidade de vida e não focar somente no dinheiro e na rentabilidade, porque é preciso ter saúde para viver e cuidar das outras pessoas”, destaca.

A atenção aos sinais também ajuda a diferenciar o cansaço habitual de situações que precisam de acompanhamento. Condições como ansiedade, depressão e síndrome de burnout possuem características próprias e devem ser avaliadas por profissionais qualificados.

Setembro Amarelo amplia debate sobre saúde mental

A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção do suicídio e promoção da saúde mental. A iniciativa busca estimular o diálogo sobre sofrimento emocional, sinais de alerta e a importância de procurar ajuda.

Entre profissionais de saúde, o tema ganha relevância diante de ambientes marcados por pressão, jornadas extensas e responsabilidade constante. Nesse contexto, reconhecer os próprios limites não representa falta de preparo, mas uma medida de cuidado.

A atenção à saúde mental também depende das condições oferecidas pelos locais de trabalho. Escalas mais equilibradas, pausas, ambientes seguros para relatar dificuldades e acesso a apoio psicológico e outros serviços de saúde podem contribuir para reduzir o impacto de rotinas profissionais intensas.

Médicos que percebem mudanças persistentes no humor, no sono, na relação com o trabalho ou na vida pessoal devem buscar avaliação especializada. O acompanhamento pode envolver psicólogo, psiquiatra ou outros profissionais, conforme a necessidade de cada caso.

Cuidar de quem cuida também passa por reconhecer que nenhum profissional precisa enfrentar sozinho os efeitos de uma rotina que ultrapassa seus limites.

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