
Na pecuária, produzir mais não significa necessariamente ganhar mais. Com a oscilação dos preços, aumento dos custos e os impactos das condições climáticas, o resultado financeiro da propriedade depende cada vez mais da capacidade do produtor de saber exatamente quanto gasta, quanto produz e qual retorno cada decisão gera.
Nesse cenário, a gestão estratégica passou a ocupar espaço importante dentro da porteira. Para o zootecnista Julio Matos, proprietário da InovaBov Consultoria em Agronegócio, margens mais apertadas aumentam o risco de decisões tomadas apenas com base na experiência ou na intuição.
“Mais do que produzir, é fundamental saber quanto está sendo produzido, quanto custa produzir, qual margem está sendo gerada e quais fatores estão influenciando esse resultado”, explica.
Segundo o especialista, uma administração organizada permite localizar gargalos, direcionar melhor os recursos e avaliar os efeitos das decisões adotadas na propriedade.
O acompanhamento precisa envolver diferentes áreas da fazenda. Pastagem, alimentação, reprodução, sanidade, manejo, mão de obra, compras e comercialização fazem parte de uma mesma engrenagem e interferem diretamente no resultado final.
Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão taxa de lotação, ganho médio diário, produtividade por hectare, taxa de prenhez, mortalidade, idade ao abate e custo da arroba produzida.
Na parte financeira, o produtor também deve observar custos de produção, receitas, margem e retorno sobre o capital investido.
Mais do que juntar números, porém, é necessário analisá-los de forma periódica. Um lote que apresenta bom ganho de peso, por exemplo, pode não representar um bom resultado financeiro se o custo da estratégia utilizada for elevado.
“O indicador, isoladamente, não explica o desempenho da fazenda. O dado passa a ter valor quando ajuda a interpretar a realidade da propriedade e orienta a tomada de decisão”, afirma Julio.
A organização também permite antecipar períodos de maior dificuldade. Na passagem das águas para a seca, por exemplo, o produtor precisa avaliar a disponibilidade de pastagem e definir previamente como manter o desempenho do rebanho.
Entre as alternativas estão ajuste da taxa de lotação, diferimento de pastagens, produção de volumoso, suplementação, confinamento ou venda estratégica de animais.
O mesmo planejamento pode ser aplicado às compras de insumos, ao fluxo de caixa, aos investimentos e ao momento de comercializar o gado.
Para Ricardo Passos, presidente da Associação Novilho Precoce Tocantins, profissionalizar a administração da fazenda ajuda o pecuarista a tomar decisões com maior segurança.
“O pecuarista toma decisões que envolvem recursos, tempo e o futuro do negócio. Quando conhece seus custos e acompanha os resultados, consegue definir prioridades com mais segurança, corrigir o que não está funcionando e aproveitar melhor o potencial da fazenda”, destaca.
O controle da propriedade também pode ser iniciado com ferramentas simples. Em pequenas fazendas, uma planilha ou até mesmo um caderno pode ajudar a registrar receitas, despesas, movimentação do rebanho, ganho de peso e índices reprodutivos.
Entre os problemas mais frequentes estão o desconhecimento do custo da arroba produzida, investimentos feitos sem análise de retorno, registros que não são avaliados e decisões de compra ou venda tomadas apenas diante de uma necessidade imediata.
Falhas no manejo das pastagens e a falta de planejamento zootécnico, sanitário e reprodutivo também podem comprometer a produtividade e o resultado econômico.
A recomendação de Julio é começar pela elaboração de um diagnóstico completo da propriedade. O levantamento deve considerar tamanho e composição do rebanho, áreas disponíveis, estruturas, recursos, receitas, despesas e principais indicadores de produção.
A partir dessas informações, o produtor consegue estabelecer metas e definir prioridades de acordo com a realidade da fazenda.
“Nem sempre a melhoria dos resultados depende de grandes investimentos. Em muitos casos, ajustes de manejo, organização dos processos e melhor utilização dos recursos disponíveis podem elevar a eficiência da propriedade”, conclui o zootecnista.
Na prática, a gestão transforma os dados do dia a dia em informação para decidir. E, em um mercado onde custos e preços podem mudar rapidamente, conhecer os números da própria fazenda pode ser tão importante quanto aumentar a produção.
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